
Olhos d'Água Goiás

Olhos d'Água Goiás

Olhos d'Água Goiás

Olhos d'Água Goiás
Emerval Crespi Junior
Mestre de Saberes
Olhos D’Água, distrito de Alexânia - Goiás.
Em meio à vastidão cultural do interior de Goiás, surge a voz inconfundível de Emerval Crespi Junior, o Mestre de Saberes de Olhos D’Água.
Sua obra não apenas resgata, mas poeticamente eterniza a vida e as tradições de seu distrito. Convidamos você a conhecer a fundo Emerval Crespi através da sua criação mais emblemática: a crônica poética ‘Lugarzim Besta’. Longe de ser um termo depreciativo, essa expressão encapsula a ternura, a ironia e a profunda valorização da vida simples que o Mestre preserva.
Emerval Crespi é uma figura notável, cuja vida e obra estão profundamente conectadas com a história, a cultura e o conhecimento tradicional de Olhos D’Água, Goiás.
Como guardião da memória local, seu vasto saber abrange desde a fundação e o desenvolvimento histórico da região, passando pelas festividades, crenças populares e práticas culturais específicas do local. No entanto, o que o distingue de forma emblemática é sua maestria na arte da oralidade, transformando lendas, causos e passagens históricas em narrativas vivas.
Essa habilidade se manifesta de maneira sublime em sua obra mais conhecida, a crônica poética "Lugarzim Besta", escrita em 2006. O título, um apelido irônico e carinhoso para Olhos D’Água, desvela a essência do trabalho de Emerval: ele valoriza a simplicidade e a autenticidade da vida interiorana de Goiás. Ao utilizar a linguagem popular, com a ortografia fonética do dialeto caipira-goiano (como em "triêrozim" e "fulozinha"), ele não apenas narra, mas preserva a fala genuína de seu povo, usando todos os sentidos para construir um cenário vibrante. Nas ruas "prifumadas" de sua crônica, exalam os marcadores da memória — "áio queimado," "café torrado" e o perfume místico da "dama da noite."
Mais do que uma simples descrição, a obra é um símbolo de resistência cultural, como no trecho que exalta o "rangê dum carro de boi qui insiste num si interrá", ou a paz social do lugar, onde as moças saem sozinhas "sem importá cum hômi marvado."
Emerval Crespi é, inequivocamente, a prova viva de que um Mestre de Saberes traduz a memória em poesia, elevando Olhos D’Água, Goiás, de um "lugarzim besta" a um símbolo de riqueza imaterial e beleza autêntica do coração do Brasil Central.
LUGARZIM BESTA
LUGARZIM BESTA, SÔ
NUM TEM NADA PRÁ OIÁ
UNS TRIÊROZIM ISTREITO CERCADO DE MATO E PÉ DE PAU
CU’AS FULOZINHA INCARNADA
ARRUDIADA DE BEJAFRÔ
LUGARZIM DAS RUA PRIFUMADA
DAS VÊIS CHÊRA ÁIO QUEIMADO
DAS ÔTRA CAFÉ TORRADO
CHÊRA INTÉ DAMA DA NOITE
QUI O VENTO METIDO A AÇOITE
LEVA CONSIGO PRA BÊRA DA ISTRADA
Ô, CANTIM PARADO
ONDE AS MOÇA SAI SUZINHA NO CAMINHO DA MISSA, À NOITINHA
SEM IMPORTÁ CUM HÔMI MARVADO
ARREMEDO DA CHAMA DA VIDA
DE MULEQUE E BOLA NA PRAÇA
DONDE A IGREJINHA TENTA INXERGÁ A MINA
NUM TEM FERRO, NUM TEM VIDRAÇA
SÓ MOÇA E VÉIA DIBRUÇADA NA JANELA
OIANDO A VIDA PASSÁ
VÊIS EM QUANDO INDA SI ISCUITA BEM PRÁ ACOLÁ
O RANGÊ DUM CARRO DE BOI QUI INSISTE NUM SI INTERRÁ
A JUNTA INCANGADA PUXANDO OS CAUSO DESSE LUGÁ
LUGARZIM BESTA, SÔ
DAS VIDINHA TUDO PIQUENA
QUAL FULOZINHA BRANQUINHA MIÚDA E PRIFUMADA
QUI BROTA DOS LARANJÁ.
(Emerval Crespi, nov 2006)
